O período natalino, marcado por suas sentimentalidades, movido pelo consumismo, por todos os lados, em meio as ruas iluminadas, veículos transitam apressados. O frenesi das horas antecipam a correria na busca pelo presente esquecido, uma parada rápida, para a foto com o bom velhinho. Esse mesmo, que conseguiu se tornar protagonista das festas de final de ano, usurpando a celebração do aniversariante. A roupa vermelha e branca ofusca um cenário registrado pelos textos bíblicos. O menino na manjedoura, em um contexto no qual não havia lugar, continua do lado de fora das comemorações natalinas.
É paradoxal, que aquele que é a razão do Natal, não seja lembrado, e passe desapercebido dos nossos encontros. Os presentes se tornam mais importantes, a ceia é religiosamente planejada, os detalhes na disposição dos elementos sobre a mesa. A troca de presentes, a disputa para ver quem entregará o melhor presente, o segredo guardado, de quem será o amigo, às vezes, nem tanto. Abraços, na maioria das vezes, verdadeiros, mas nem todos, há também espaço para desafetos, substituição de nomes secretos. Todos os anos, quase as mesmas práticas, ainda que repetitivas, essas repletas de significados.
Entre alguns, há os negacionistas, dizem que não se deve celebrar essa data, afinal de contas, aquele que deveria ser lembrado, não nasceu nesse período. Argumentos supostamente científicos são expostos, defesas referenciadas, arautos da racionalidade. Mas o Natal não se fundamenta em comprovação, é uma época de imaginação, de exercitar a criatividade, de se deixar enlevar pela poesia. A existência tem dessas coisas, quem nunca celebrou um aniversário fora da data, dias antes ou depois do dia do nascimento. Por isso, esse é um período geralmente amado pelas crianças, essas estão abertas à novidade, às surpresas dos presentes, mesmo que esses sejam simples.
A surpresa do Natal, é a manifestação do divino, o advento dAquele que é, e decidiu se tornar um pessoa comum, abandonou o extraordinário, para experimentar o cotidiano. Nos escritos evangélicos, Ele é o Logos, a Palavra que se tornou gente, e fez morada no meio dos homens e mulheres. É isso mesmo, o verbo utilizado pelo Evangelista, traz a ideia de habitação, de se tornar vizinho. Talvez, por isso, alguns teólogos associam o Natal ao ato de Deus decidir se tornar nosso vizinho. Essa metáfora interpela as pessoas mais vulnerabilizadas a se reconhecer dignas. O Deus dos Evangelhos, age motivado por graça, por isso, como a água, desce aos lugares mais baixos.
Jesus é a surpresa do Natal, o presente que nos foi entregue, como um ato de amor, para que tenhamos vida eterna. Esse é um tempo no qual Deus se revela propriamente favorável a nos, não é um contra nós, como estabelece a religiosidade legalista. Esse é um momento para expandir a graça de Deus que se manifestou a nós, para tratar os outros com o mesmo sentimento. Contam que quando a Apolo 11 pousou em solo lunar, disseram que aquele teria sido o maior acontecimento de todos os tempos. Um famoso evangelista decidiu contrariar, negando que aquele teria sido o maior evento da história. De maneira assertiva, declarou que o maior evento não foi o homem ter ido à lua, mas Deus ter vindo à terra.
Por isso, nesse período natalino, é preciso se deixar surpreender por essa mensagem, e com os anjos declarar: "Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens aos quais sele concede o seu favor" (Lc. 2.14).
